março 20, 2007

l ´ Itália!

As Pinturas do Império Romano

Estilos de origem grega continuaram a influenciar fortemente os artistas até bem depois do período helenístico, que se convencionou haver terminado com a batalha do Áccio (27 a.C.). Logo após esse confronto, a república romana, no governo de Augusto, converteu-se em império e se tornou a potência dominante no mundo ocidental, posição que conservaria por mais alguns séculos. Todas as pinturas helenísticas que chegaram até nós são do período romano, e muitas foram feitas por artistas latinos que copiavam figuras gregas. Essas pinturas romanas do século I revelam um naturalismo sem precedentes e um caráter descontraído e lírico. Tais aspectos ficam especialmente óbvios em Moça a colher flores, essa bela pintura mural, de aparência tão moderna, que foi encontrada na cidade romana de Estábias. (Estábias era uma pequena estação de veraneio, não tão conhecida como Herculano ou Pompéia, que foi destruída junto com essas duas cidades na mesma erupção do Vesúvio, em 79 d.C.)

Deslizando suavemente, a jovem afasta-se de nós com um encanto comovente. Não vemos seu rosto, como se ela preferisse esconder de nós a extraordinária beleza que parece associar-se às delicadas flores que colhe. Ela some nas brumas, deixando atrás de si apenas uma indicação do que deve ter sido a pintura romana. Costuma-se esquecer a vulnerabilidade da pintura e a facilidade com que obras primas podem ser destruídas.

Pinturas Murais Ilusionísticas

Também temos um número considerável de pinturas romanas de Pompéia, mas grande parte delas é claramente obra de artistas provincianos, muito influenciados pela pintura grega (que os romanos admiravam tanto quanto a escultura grega e copiavam nas casas dos ricos).

O interesse romano na paisagem é, provavelmente, de origem helenística. Também é provável que os artistas romanos estivessem dando continuidade a uma tradição helenística quando embelezavam as paredes do interior das casas com ilusões de revestimentos caros e de lajes de mármore colorido. Tal habilidade foi aplicada nos palácios dos césares no monte Palatino. O que diferencia da tradição helenística a arte romana é a preocupação com os fatos – lugares, rostos e acontecimentos históricos. Os artistas latinos estavam sobretudo interessados no espaço (o que talvez lance uma luz curiosa sobre a psique coletiva romana). Também sabiam como ampliar o espaço numa parede, mediante falsas imagens de pórticos e parapeitos, os quais, por sua vez, enquadravam ilusões de paisagens e figuras. O mural do saguão da Villa di Lívia, em Prima Porta, nos arredores de Roma, é um exemplo encantador do esforço de criar uma ilusão de jardim. Utiliza a técnica do afresco e mostra aves, frutas e árvores com minúcia realista. Uma treliça baixa separa-nos do estreito gramado. Para além, vêem-se uma mureta e, depois, árvores frutíferas.

Tal ilusionismo é visto não apenas em murais, mas também em pequenas obras, como, por exemplo, numa natureza morta com pêssegos e jarra de água que foi pintada por Herculano por volta de 50 d.C.

Essa imagem de aspecto tão moderno, extraordinariamente viva, revela compreensão da luz natural: o artista tentou mostrar os vários efeitos da luz que incide nos objetos e através deles; ele também usa com coerência o claro-escuro (a arte de distribuir sobre um fundo de sombra efeitos de luz difusa) como meio de dar volume à forma e reforçar a ilusão da realidade. Mais uma vez, essa habilidade foi de início vista nas obras helenísticas, o que revela quantas idéias foram importadas por Roma.

O Retrato Romano

Hoje se acredita que a pintura mural conhecida como “O padeiro e sua mulher”, uma obra do século I descoberta em Pompéia, retrata não um padeiro, mas um advogado e sua esposa. (Os arqueólogos ainda tentam determinar a quem pertencia a casa em que esse mural foi encontrado) mas, não importa quem fosse o casal, o retrato é essencialmente romano, com todo o interesse concentrado nas personalidades dos dois jovens.

O marido, um rapaz sério e ligeiramente desajeitado, olha ansioso para o observador, enquanto a moça contempla a distância, meditando e segurando um estilo junto a seu queixo delicadamente acentuado. Ambos parecem solitários, como se esses olhares diferentes revelassem algo de seu casamento. Vivem juntos, mas não compartilham a vida. Há outro aspecto comovente: a Casa de Neo (qualquer que fosse o ofício do dono, sabemos ter sido esse o nome do imóvel em que se localizava a pintura) ainda não estava concluída à época da erupção, e, por isso, é possível que aquela solitária existência a dois tenha sido tragicamente curta.

As Múmias de Faium

Talvez a mais instigante das pinturas latinas possa igualmente ser considerada egípcia, pois as duas culturas mesclaram-se de forma extraordinariamente viva quando, durante o domínio romano no norte da África, o realismo europeu encontrou o lirismo africano. Escavações trouxeram à luz múmias do cemitério de Faium, uma cidade (hoje, um distrito) perto do Cairo. Essas múmias estão protegidas por diversos tipos de invólucro, que vão de papel-machê a sarcófagos de madeira. Junto a cada múmia, há um painel em que o retrato do morto foi pintado por encáustica, veículo que consiste em pigmentos suspensos na cera quente. Sabemos que esse sarcófago foi feito para receber o corpo de um homem chamado Artemidoro, pois seu nome está escrito ali. As silhuetas abaixo do retrato do morto representam divindades egípcias.

Embora os retratos de Faium mostrem pessoas de todas as idades, os mais tocantes são os de jovens adultos. Talvez pretendessem dar idéia da natureza do indivíduo, de seu espírito, em vez de mostrar a aparência externa; nesse caso, é possível que alguns dos retratos tenham sido idealizados.

A Escultura Romana

Muito depois de desaparecida a antiga civilização romana, exemplares de sua escultura continuam visíveis em todas as partes daquele império. Na própria Roma, os grandes relevos narrativos na Coluna de Trajano e no Arco de Tito estavam à vista de visitantes e moradores da cidade. A Coluna de Trajano tem a altura de um edifício de dez andares, e seu pedestal, o equivalente a dois andares. Foi erigida em 113 d.C. para homenagear o imperador Trajano, cuja estátua dourada (substituída no século XVI pela de São Pedro) estava colocada no topo. O mármore da superfície é talhado de modo a parecer um pergaminho que se desenrola em espiral coluna acima.

O “pergaminho” tem mais de 180 metros de comprimento e inclui mais de 2500 figuras humanas. Ele mostra uma série de cenas das triunfais campanhas de Trajano na Dácia (a atual Romênia). Nos trechos reproduzidos aqui, soldados e operários erguem as muralhas de uma fortificação. Os relevos são rasos e tem ar de pintura. Formam uma narrativa continua e clara, conduzindo o “leitor” através de 150 episódios em sucessão. No século XVI, esses relevos formam importante inspiração e influência para os artistas da Renascença, que consideravam os densos entalhes da coluna uma demonstração idealizada e tridimensional do que a arte bidimensional pretendia.

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